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Música da minha adolescência. Mas só hoje a letra fez sentido.

28 de setembro: dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe

Às vezes se sente desprezo gratuito e imediato por alguém. Não foi assim com aquela minha colega do curso de jornalismo. Eu nem a enxergava – assim como não vejo a maioria das pessoas que compartilham alguma matéria comigo, simplesmente porque de mim não se pode dizer que seja uma pessoa sociável e expansiva. Não lembro exatamente sobre o que falávamos na aula daquela noite. Se minha memória não me trai, acredito que aqueles que já haviam iniciado na profissão foram impelidos pelo professor a dar alguns conselhos aos menos experientes. Eu, como sempre, escutava sem muito interesse, um olho no relógio e outro em um livro debaixo da classe, que a ser gonzo, como eu queria, só Hunter Thompson ensina. Até que uma moça, esta que me era transparente, ergueu a mão com uma pressa e uma euforia visíveis. Disse que trabalhava já há certo tempo como repórter aprendiz e adorava o que fazia. Contou que, naquele mesmo dia, acreditem se quiserem, havia coberto o fechamento de uma clínica clandestina de aborto. Jamais vi uma pessoa tão satisfeita consigo mesma. Pelo que pude compreender, o próprio veículo de comunicação para o qual trabalhava havia efetuado a denúncia. E pôs-se a contar, em detalhes escabrosos e desnecessários, o funcionamento do estabelecimento, a aparência do médico, a quantia em dinheiro encontrada no local (tratava-se, aparentemente, de uma opção para pessoas com recursos), o desespero da mulher que foi surpreendida no momento em que iria se submeter ao procedimento. Ao falar sobre esta última, riu. Entre chocada e entristecida com o tipo de ser humano – dito esclarecido, já que ocupa um lugar em uma universidade – que dividia uma sala de aula comigo, devo ter feito uma expressão realmente diferente da minha cara habitual. Não queria acreditar no que ouvia. Com qual certeza a pequena jornalista acreditava ter feito um grande furo de reportagem! E, por certo, pensava ser, naquele momento, alvo de admiração dos colegas. De mim, conseguiu o desprezo e a vergonha alheia. Pensei na falta de posicionamento e de valores que atingem os novos profissionais (principalmente os de comunicação). No lugar da moça, se fosse eu a designada para cobrir tal encenação do retrocesso evolutivo do ser humano, recusaria veementemente. Bateria pé. E muito provavelmente seria demitida, já que estagiários vêm e vão e aqueles sem opinião própria são os mais desejados. E tudo porque eu acredito em uma causa. Tenho meus valores. E acho, sim, que a mulher sempre será inferior ao homem na hierarquia social se o aborto não for legalizado.

Em primeiro lugar: ninguém é obrigado a ser a favor de nada. Mas é complicado dizer até que ponto se pode interferir nas opiniões (e militâncias) de outrem com base em suas vãs filosofias. Eu, por exemplo, sou contrária à legalização da maconha. Não gosto da erva, nem que a usem perto de mim. Mas não tento impedir os protestos e passeatas em prol da liberação da droga. Quem quiser que fume, quem quiser que gaste seu tempo redigindo textos como este que faço em defesa do aborto. Cada um com sua causa. Não sou usuária e, se a maconha for liberada, não passarei a ser. No máximo precisarei evitar alguns ambientes. E só. Nada muda no âmbito das minhas – sempre abertas a discussão – ideias.

Imagino que muitos estejam, agora, com as bocas abertas e os olhos arregalados: como ousa esta insensível comparar uma substância ilícita a uma criança? A uma vida? É, mais uma vez, difícil entrar neste mérito – não vou, portanto, me prolongar muito nesta questão, até porque não é ela o centro do debate que promovemos neste 28 de setembro. Alguns estudiosos julgam que a existência começa quando há fecundação; outros, e penso como eles, acreditam que, quando o embrião atinge um determinado estágio de desenvolvimento, não há mais nada a fazer a não ser deixar que a gestação siga seu curso natural. Não sou, portanto, a favor do infanticídio. Sou a favor do aborto. E defendo meu ponto de vista, assim como muitos defendem o seu. Alguns com maestria.

George Carlin – ator e humorista norte-americano que possuía uma sensacional capacidade de analisar a sociedade contemporânea – fez um show excelente em que falava sobre pessoas antiaborto (ou pró-vida, como queiram, embora eu considere este termo irônico). Alguns argumentos em favor da interrupção de uma gravidez expostos no vídeo são absurdos e têm o firme propósito de fazer rir, claro, mas outros são (muito) relevantes e fazem pensar. O principal: pessoas pró-vida são antimulher. Nada mais verdadeiro.

Como explicar quem derrama sua verborragia (geralmente lotada de erros de português, seja falada ou escrita) em prol de quem nem nasceu – e em detrimento de uma mulher que está viva, vivíssima, sofrendo e cheia de dilemas? Como explicar quem aponta o dedo e obriga a gestante a correr risco de vida para salvar, contra a sua vontade, um punhadinho de células que ainda não é nada? Como explicar quem finca o pé e afirma que vítimas de estupro devem parir uma criança gerada em um momento tão horroroso? Como explicar quem impõe que se carregue no ventre, durante nove longos meses, um feto anencéfalo – para que este morra minutos ou horas após o nascimento? Ninguém pode decidir nada em nome de uma mulher que sofre. Pode somente oferecer apoio.

O que nos impede de ter, atualmente, uma política decente nessa questão do aborto, visto que vários países já o legalizaram ou descriminalizaram? Duas coisas. Primeira (e eu não toco neste assunto com prazer, acreditem; sou simplesmente forçada a isso): somos um país com maioria religiosa. Governo nenhum ousará desagradar aos eleitores para ver sua popularidade cair nas pesquisas de opinião. Nossos governantes têm, em geral, mais cara de pau do que coragem. Segundo: falta de uma estrutura que combine educação, instruções de planejamento familiar, leitos hospitalares, médicos e medicamentos. Nossos governantes são, em geral, mais hipócritas do que práticos.

Defendo o aborto há algum tempo, e nem sempre assino com nome e sobrenome (Camila Kehl, muito prazer), eu que temo o fanatismo. E  já fui obrigada a ler comentários escabrosos a respeito dos meus textos e ensaios – sempre deixados por gente que se diz religiosa. Claro, estes têm seu direito de resposta, visto que, quando defendo a interrupção do que para eles é uma vida, mexo com suas crenças mais enraizadas. Alguns exemplos genéricos já resumem a maioria e dão a dimensão da falta de esclarecimento de quem se deixa guiar cegamente por dogmas insanos e sexistas: “DEUS vai vingar estas tuas palavras”; “DEUS não permitirás jamais que sintas a alegria de ser mãe”; “Tomara que DEUS não tenha piedade de ti e te mande para o inferno” etc. A linha de pensamento é sempre a mesma – esse banjo só tem uma corda: invoca deus (sempre escrito em letras maiúsculas), inventa um castigo que pareça realmente atroz, deixa a ameaça no ar, sai de cena pisando forte e fazendo beicinho, fim do primeiro ato.  Suponhamos, então – e, graças ao teor dos comentários que recebo, com uma taxa de acerto bastante aproximada – que 85% destes que clamam pelos direitos dos fetos sejam cristãos de qualquer religião. O que prega o cristianismo? Amor? Eu diria que não. O que nos contam, basicamente, as historinhas que falam sobre aquele deus? A maioria delas possui uma moral belíssima: vingança, machismo e violência. Não necessariamente nessa ordem. E as ofensas que eu e todos os defensores do aborto recebemos têm em comum um desejozinho de vingança, uma vontadezinha de impor outra vontadezinha. Soberania e soberba. Certeza inabalável. E a pretensão, risível, de que sua crença possa decidir por todo mundo, embora não queiram, os religiosos, salvar os impuros assassinos e os defensores dos assassinos do pecado: eles querem é ver o sepulcro pegar fogo.

Quantos dos que vomitam leis divinas fazem trabalhos voluntários em orfanatos e casas de passagem? Quantos doam suas economias para ajudar a dar um futuro digno aos filhos que o Brasil não pode criar? Quantos, nas palavras de George Carlin, deixam de se preocupar com o pré-natal no momento em que este vira pré-escolar? Não podemos interromper uma gravidez – mas, depois que, aí sim, esta se transforma em uma vida, uma criança, podemos sujeitá-la a qualquer situação. É justo?

Um golpe baixíssimo usado pelos adoráveis pró-vida costuma afirmar algo do tipo: “Na hora da safadeza (adoro esta palavra; ela é empregada na maioria dos casos de censura) não se pensou nas consequências”. Vejam por aí uma amostra da sensação de superioridade que os religiosos nutrem em relação aos mundanos. O sexo, para eles, é só para fins de procriação pensada e estudada? Atenção: não estou defendendo que viremos animais irracionais e nos entreguemos ao prazer, às orgias e ao Carnaval, e que transformemos nosso país em uma filial de Sodoma ou Gomorra. Mas, se não acredito no id, tampouco creio no superego.

Poucos críticos do aborto trazem à tona argumentos racionais e que contribuem para um diálogo inteligente, coerente, prático e produtivo. O que vemos é, geralmente, aquilo que citei acima: opiniões de religiosos que se sentem no direito de impor suas crenças e sua visão limitada, jamais defendendo seu ponto de vista com outra arma que não seja o nome de deus. Neste caso, senhores, não o estariam usando em vão?

Um boa defesa usada por alguns pró-vida prega que é fácil tomar cuidado para evitar a gravidez – é só usar preservativo e outros métodos contraceptivos. Claro. É o óbvio, o ideal. Mas precisamos nos adiantar e supor que nem tudo é simples quando não somos, de fato, criados à imagem e à semelhança da perfeição, estando, assim, sujeitos ao humano e, portanto, próximos do falho. Ou seja: tanto propensos aos nossos erros quanto suscetíveis às falhas dos próprios métodos que criamos e que supostamente deveriam agir em nosso favor.

Mas é certo que, na maioria das vezes, pílulas, camisinhas e processos de esterilização funcionam com relativo sucesso. Por isso que, na esteira de tornar legal a interrupção da gravidez, o Brasil precisa de políticas claras para educar a população: deve-se ensinar a usar as armas de que dispomos, deve-se introduzir um programa de controle de natalidade e deve-se propor punições (bem) mais severas para estupradores. Junto com tudo isso, treinar profissionais da saúde para que deem o apoio psicológico necessários às mulheres que optam pelo aborto. Porque, por mais que os pró-vida gostem de chiar o contrário, ninguém recorre a este procedimento por sadismo, insensibilidade ou frieza. É um último recurso que machuca e deixa suas marcas. Tratar como assassinas essas mulheres é algo tão mesquinho e tacanho que também poderia configurar um crime. De preconceito e pré-julgamento.

Milhares de mulheres morrem todos os anos em decorrência de processos abortivos ilegais, geralmente feitos sem higiene, cuidado ou suporte. “Bem feito”, diriam os religiosos, os moralistas e os hipócritas. Agora imaginem que a maioria daquelas que se submentem a qualquer procedimento do tipo sabem perfeitamente os riscos que correm, já que devem ter, de alguma forma, pesquisado um pouco sobre o assunto antes de recorer a determinado meio. E mesmo assim vão em frente. Algumas são anestesiadas e não sabem se vão acordar. Ainda assim, a morte lhes parece menos dolorosa do que a obrigação, penosa, de se ser mãe quando, por qualquer motivo, não se sentem preparadas para ocupar tal função. Se corre tudo bem – e elas não falecem nem ficam aleijadas – ainda têm de lidar com suas próprias questões morais (todos nós as temos), suas dúvidas, sua culpa, sua vergonha. Vítimas? Não chegaria a esse extremo. Criminosas? Muito menos.

E os homens, que parcela de participação têm nesse debate? Alguns, sensíveis e de olhos atentos, podem chegar perto de, de fato, compreender as mulheres e a capacidade de concepção de uma vida. Outros agem simplesmente como atiçadores de uma fogueira que não precisa de mais ignorantes a fazer vento. Hoje, antes de concluir este texto, digitei a palavra “aborto” na busca do Twitter – queria conferir a opinião de outras pessoas. Dentre algumas mensagens iguais a tudo o que já li (contrárias à interrupção da gravidez) me deparo com um comentário mais ou menos assim, feito por um moço de questionável percepção: “Se extrair um dente já dói, imagine fazer um aborto”. Deve ser igual. Parabéns.

Pessoas contrárias ao aborto, principalmente religiosos: permitam que cada um cometa seus próprios (visão sua) erros. Não é de vocês o pecado. Lavem as mãos. O inferno está esperando por nós, os defensores dos direitos humanos, não está?

Para terminar, vejam este vídeo incrível. Ignorem os erros de português. Reparem que a mensagem, tanto no que diz respeito à linguagem quanto às imagens utilizadas (bebês perfeitos e lindos), é completamente emocional. Não se vê um fiapo de racionalidade. Reparem nos comentários. No nível de instrução – e cultura, e conhecimento – que transmitem aquelas palavras. É assim que a maioria dos pró-vida se expressa: gritando “Assassinos!” enquanto brada toda a sua superficialidade, rasos como pires.

Querida colega do meu antigo curso de jornalismo: sua risada da situação da pobre mulher na clínica mostra seu cinismo e sadismo. Boa sorte no exercício de uma profissão que exige não só um olhar imparcial, mas um olhar humano. Nos encontramos em alguma seleção de emprego, já que o diploma não é mais obrigatório, mas os culhões são. Abraços.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum
É mais estranho do que todas as estranhezas
E de que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
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Bob Dylan | Knockin’ on Heaven’s Door

O e-commerce de livros no Brasil e algumas considerações sobre a conduta de empresas no Twitter

Eventualmente compro alguma coisa pela Internet. Eletroportáteis. Cosméticos. Roupas. Nunca havia tentado comprar livros, e isso porque sempre encontrava o que buscava em livrarias ou bibliotecas. Além disso, gosto de pegar a obra, ler a contracapa, analisar cada detalhe. Isso mudou quando a editora Cia. das Letras lançou 2666 do Roberto Bolaño. Não aguentava de ansiedade para tê-lo em mãos, e nem em minha cidade nem em Porto Alegre encontrei qualquer rastro do livro. Passei a vascular a web, frenética. Nenhuma das maiores lojas disponibilizou 2666 no momento em que ele foi lançado – momento este que era, para mim, entusiasta e fã apaixonada de Bolaño, o ideal para comprá-lo. Resignada, esperei até que a edição chegasse a minha cidade. Demorou, mas finalmente consegui. Minha fé nas livrarias virtuais, que já não era nenhuma, que já não era nada, terminou com saldo negativo.

Entre a busca desesperada e a compra, cheguei mesmo a contatar a Cia. das Letras através do Twitter. Primeiro, quando elogiei o lançamento, não obtive resposta. Depois perguntei onde poderia conseguir o livro – cheguei mesmo a questionar se poderia comprá-lo através da própria editora. A resposta não veio. Reclamei. Só então recebi esta DM:

Até aí, nada demais. Não considero que tenha sido um erro da Cia. das Letras. Trabalhei durante mais de dois anos com marketing digital, atualizando, entre outras redes sociais, o Twitter de algumas empresas e marcas, e sei que às vezes as mensagens são muitas e que não há maneira de responder a todas de maneira satisfatória. Podemos mesmo acabar deixando passar uma ou outra. Por uma questão ética, não posso citar para quem trabalhei, mas não há problema algum em dizer que são todas grandes e muito conhecidas. Enfim.

Mesmo assim, não me considero uma especialista em e-commerce ou em relacionamento com o cliente através da Internet. Nem mesmo uma grande conhecedora da postura exata a ser adotada em redes sociais. Neste ponto, cada um tem uma opinião; cada pessoa, cada marca, cada empresa, cada agência. O que é um consenso entre os profissionais e o público é: as pessoas já estão debatendo, online, os prós e contras dos produtos/serviços de uma determinada corporação. Isso é inevitável. Há milhões de opiniões sendo despejadas por minuto no Twitter, há comunidades sobre tudo no Orkut, há milhares de perfis e páginas no Facebook. Portanto, o que cada empresa pode fazer ao ingressar nas redes sociais é acompanhar de perto o que é dito. E mostrar que se importa com isso.

Falando especificamente sobre o Twitter, agora:

Se alguém expressa um elogio, que se agradeça delicadamente. Isso incentiva e fortalece os laços com a marca. Dia desses, elogiei a Altenburg no Twitter pela rapidez e qualidade na entrega de uma compra. E seus representantes gentilmente agradeceram a recomendação. Dá vontade de comprar de novo. Pelo serviço de qualidade impecável e pela cordialidade, coisa indispensável em tempos em que a concorrência fica acirrada e uma simples frase mal interpretada pode garantir que um cliente em potencial compre o produto concorrente.

Se, pelo contrário, sua empresa ou marca recebe um comentário depreciativo ou não tão positivo, a última postura que deve ser adotada é justamente aquela mais difundida: ignorar.

Algumas corporações acham que a resposta a uma crítica vai manchar seu perfil. Não vai. Vai simplesmente mostrar que a satisfação de seu público é tão importante quanto um saldo positivo de vendas. O que, se todos seguirem um raciocínio óbvio e lógico, se verá que está estritamente conectado – se é que não é a mesma coisa.

Neste meio muito novo e muito subjetivo, é difícil dizer o que é amadorismo e o que não é. Não há uma única universidade com um curso de graduação nesta área – e mesmo opções simples de aperfeiçoamento de profissionais do marketing digital voltado para redes sociais, como palestras e workshops de fim de semana, são raras. Mas o que eu acho é que há, por aí, muita gente despreparada e descuidada falando em nome de empresas que até podem ser sérias e idôneas, mas que não passam essa impressão justamente porque o trabalho que se faz em cima de seu nome é lamentável. É o caso das livrarias/lojas Saraiva, Cultura, Fnac e Submarino, por exemplo, minhas mais recentes decepções.

Sejamos realistas: quando uma empresa ou marca adere finalmente a uma rede social, além de garantir ter participação ativa no que é dito sobre ela – e de poder mudar alguns conceitos ruins – ela abre, automaticamente, um canal para que os usuários e consumidores conheçam mais a seu respeito. E isso de forma despretensiosa e informal. E é aí que mora o perigo, já que algumas marcas acham que a linha entre comunicação direta e comunicação desimportante (e, consequentemente, ruim) é tênue ou invisível. Não é. Uma vez dentro do Twitter, o abastecimento desta rede social se torna crucial.

Eu, por exemplo, não conhecia o serviço da loja virtual da Fnac. Levo dados de cartão de crédito muito a sério e só os utilizo em empresas conhecidamente idôneas. Por isso, pesquiso. E não no site oficial.

Este Tumblr é meu. Eu posso dizer o que quiser sobre mim. Que sou alta, que ganhei o título de Miss Simpatia na escolha da Rainha da Festa da Uva de 2007, que crio pôneis e depois os vendo a fazendinhas abertas ao público. Vocês acreditaram? Tudo mentira. Nos nossos próprios espaços, somos aquilo que queremos ser. Podemos dizer o que nos vier à cabeça. Por isso não consulto nenhum site oficial. Consulto o Reclame Aqui e o Twitter.

Alguém perspicaz e observador vai argumentar – ou pensou, neste momento – que em seu perfil no Twitter uma marca também mostra a face que quiser. Não é bem assim.

O que a marca deixa de responder aos seus consumidores e clientes diz muito sobre ela (para pesquisar o que é falado, digite o username no lugar da home dedicado às pesquisas – @camila_k, por exemplo). O jeito como escrevem aqueles que foram escolhidos para representar a marca no Twitter também diz muito sobre ela. Sempre dá pra ler nas entrelinhas. Em alguns casos, nem precisa tanto.

Mais de uma vez já captei erros grosseiros de português da Livraria Cultura no Twitter. Eu – e mais alguns usuários – tentamos alertar. Fomos ouvidos? Não. Fomos sumariamente ignorados. O que isso nos diz? Em primeiro lugar, que o nome escolhido para a livraria está errado. Em segundo lugar, que ela não se importa com seus clientes; em terceiro lugar, que os subestima (esta última elucidação cortesia da @anaanas).

Saraiva, Submarino e principalmente Fnac ignoram completamente o que é dito sobre elas. Bom e ruim. Concordo que perfis que retuitam tudo aquilo que de importante é dito o tempo inteiro são extremamente enfadonhos. Não é isso que deve ser feito. O ideal é, e sempre de maneira discreta, qualquer que seja a situação, dar a devida atenção a quem explicitamente cita uma empresa ou marca. É claro que isso demanda tempo e fôlego; mas, em uma empresa, não há pessoal responsável por cada setor? Com a web é a mesma coisa. Delegá-la a pessoas incapazes ou subestimá-la são atitudes que tornam o relacionamento com clientes, ex-clientes e possíveis clientes algo muito complicado. Não se trata de postar apenas promoções ou descontos de hora em hora, de forma mecânica e automática. Não é isso que eu espero de alguém a quem esteja pensando em entregar meus dados de cartão de crédito; não é isso que espero de uma marca que eu admiro. Atitudes assim me desiludem como certamente me desiludiria perceber um erro de português (que visivelmente não foi um acidente) em um tuít do Cláudio Moreno. Felizmente, nunca houve uma situação em que este último temor meu tenha se concretizado.

Claro que Twitter não pode virar SAC. Existe uma grande diferença – que deve ser respeitada pelo consumidor. Cabe, no entanto, que aquele incumbido das postagens em um determinado perfil responda que a solicitação/reclamação do cliente será encaminhada para o setor responsável. E que a prioridade dada ao assunto será a maior possível.

Pois bem.

Ignorando meus mais genuínos sentimentos de apreensão, fiz uma compra na Fnac. Não é preciso dizer que me arrependi amargamente. Desorganizado, lento, imprestável e absurdo são alguns dos adjetivos que, embora fortes, podem ser empregados para o que sinto em relação ao e-commerce da loja. O que nos leva à segunda questão do post, fortemente ligada à discutida anteriormente: a dificuldade de se comprar livros no Brasil.

Primeiro tentei na Saraiva. O frete de um livro de capa mole de menos de 300 páginas (repito: um livro de capa mole de menos de 300 páginas) custaria 18 reais. Não me refiro à entrega excepcionalmente rápida feita em menos de 24 horas. Não. Me refiro à entrega normal. Embora goste do meu trabalho, e ganhe para escrever em nome de marcas e para revisar ortografia de dissertações e teses, não ache que ele seja assim tão simples e desprovido de desafios que justifique desembolsar 18 reais para pagar o frete de um livro de capa mole de menos de 300 páginas.

Fui ao Submarino. Um caso à parte, Submarino acha que estamos em 1810, ou que o Brasil é Macondo, da obra de Gabriel García Márquez, e faz pensar que suas entregas virão sobre o lombo de mulas do correio, tamanha a demora estimada. Não. Próximo.

Tentei algumas lojas que não são especializadas em livros e não encontrei o que buscava.

Não tentei a Livraria Cultura porque ouvi péssimos comentários. Não quero pagar – literalmente – pra ver.

Por fim, tentei a Fnac.

E comecei a escrever o post, lamentando a falta de uma livraria digna no Brasil. Existe?

Pedalinhos de cisne

Definitivamente não sei escrever sobre assuntos leves, despretensiosos e que não gerem polêmica. Embora eu admire essa capacidade, nasci sem ela (ou sem interesse por desenvolvê-la). Penso que, quando a prática da superficialidade se torna recorrente, a sensação que o leitor – não que eu ache que tenha algum – experimenta é a de que, a qualquer momento, o dinossauro Barney saltará do livro ou da tela cantando versos e melodias alegres. Coisa que, obviamente, não combina comigo. Eu não suporto animais que falam.

Mas hoje vou abrir uma exceção. Preciso abrir uma exceção.

O caso é que ontem eu jogava conversa fora com uma pessoa – discutíamos banalidades. E passamos, e sabe-se lá como chegamos a isso, a falar sobre pedalinhos. Eu não tinha uma opinião formada sobre pedalinhos porque, como a maioria dos seres humanos, nunca gastei tempo suficiente pensando neles. Lógico que os considerava um pouco ultrapassados e cafonas, mas nunca teci conjeturas nem parei para fazer anotações a respeito. Ontem, no entanto, uma luz se acendeu. Ou, para ser mais exata, se apagou. Enquanto conjurava mentalmente um barquinho com pedais em formato de cisne, uma nuvem cinza se materializou sobre minha cabeça. Eu havia achado meu inferno particular no mundo. Um pedalinho de cisne.

Vou muito à Serra Gaúcha e, volta e meia, acabo sendo obrig indo a um parque desses em que há muito verde, muito mato, muitos banquinhos bucólicos, muita água e… muitos pedalinhos de cisne. Quando os via, experimentava uma sensação estranha. E não sabia o que era. Cheguei a comentar com minha mãe, en passant, durante uma caminhada ao redor de um lago em uma cidade do interior mês passado, que eles me causavam uma má impressão. Agora sei do que se trata.

Assistir a um programa de tevê sobre Carnaval me constrange. Ouvir meu vizinho ensaiando com sua banda me constrange. Ler um texto mal escrito me constrange. Ver alguém com mais de oito anos usando miniblusa em plena cidade me constrange. Mas nada – nada – me constrange tanto quanto pedalinhos de cisne. E pessoas que pagam para passear por águas usualmente turvas em pedalinhos de cisne (e, consequentemente, para constrangerem a si próprias e se tornarem alvo do constrangimento alheio).

Eu não tenho nada contra aves, nada contra cisnes – muito menos medo. A água também não me causa nenhum tipo de aversão, felizmente, embora a desses rios e lagos onde circulam os pedalinhos costume reunir muita sujeira e lama acumuladas. O que então, exatamente, causa minhas reações exageradas quando se fala em pedalinhos de cisnes é um mistério para mim. Talvez possa fazer terapia um dia e trazer esta particularidade à tona. Ou regressão.

Para calcular se você possui a mesma fobia que eu, observe a foto com atenção. Finja que está de pé na margem do rio, observando a cena com cautela. O que você sente? Tem vontade de mergulhar na sujeira para escapar da visão do inferno? Tem vontade de esperar que os pedalinhos cheguem até a margem para depois virar seu cantil de whisky nos cisnes, riscando fósforos em seguida? Tem vontade de sair correndo para vomitar em um matagal? Tem vontade de dar na cara de todos os que estão pedalando inocentemente, só de raiva pelo constrangimento que lhe estão causando? Qualquer que seja sua alternativa, e mesmo que tenha escolhido mais de uma, você pode ser diagnosticado como portador da fobia de pedalinhos de cisne. Se, no entanto, você não sente nenhuma aversão ao olhar para esta alegoria do mau gosto, ou mesmo se é daqueles que pagam para andar de pedalinho… bom, então você não tem problemas.

É óbvio que este post não passa de uma piada (embora verdadeira) e que não nutro nenhum sentimento negativo contra pessoas que apreciam uma agradável tarde navegando sobre um cisne de resina. Cada um faz o que quiser, desde que não atinja ou machuque ninguém. Se for mesmo o caso, o ideal é ignorar todos os outros. Incluindo pessoas babacas como eu, que ficam vermelhas de vergonha por pouco e nem um pouco por muito. 

Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder en face.
François de La Rochefoucauld, Máxima 26
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego (quem não o leu pelo menos três vezes jamais pode dizer que conhece a obra do luso).
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Neil Young | Without Rings

É uma das músicas menos conhecidas do Neil Young. Não há qualquer alusão a ela na voz do cantor no YouTube; só existe uma versão de um fã (não muito boa). Foi retirada de um CD bastante antigo.

Aprendendo a ser intolerante

Seguindo a linha de pensamento sobre a tolerância:

Uma das primeiras lições que aprendemos quando iniciamos na vida escolar é que a tolerância é uma coisa muito abstrata e subjetiva, cujos contornos são borrados e cuja forma, apesar de variável, se encaixa melhor em alguns lugares e situações. Ou seja: só é tolerável aquilo que não foge completamente de certos padrões pré-estabelecidos e delimitados. Este ensinamento nos é transmitido no ambiente escolar justamente por quem deveria chamar a atenção das crianças para o respeito e para a gentileza: professores e pedagogos. Não que isto seja uma regra – em geral, nada é – mas é bastante comum. Talvez agora, tardia e precariamente, as coisas estejam começando a se modificar. É a exigência do século XXI. Quando eu era estudante dos ensinos Fundamental e Médio, as coisas eram um pouco diferentes. E mesmo agora, acadêmica de publicidade e propaganda, percebo que há alguns membros do corpo docente da universidade extremamente mal preparados para lidar com o incomum.

Voltando à época de colégio: estudei a vida inteira em uma instituição católica pertencente aos Irmãos Maristas, do jardim de infância ao terceiro ano do segundo grau.

Tenho – desde que me conheço por gente, e principalmente desde que aprendi que a leitura e a escrita podem ser os melhores meios de formar e organizar pensamentos – falhas de caráter gravíssimas: sou introspectiva; posso passar horas com um livro em frente ao nariz, sem precisar me mexer, sem precisar da companhia de ninguém; além disso, não gosto de falar em público, o que não quer dizer que eu me cale diante daquilo que me parece errado e injusto. Jamais consegui aceitar certas coisas de boca fechada, simplesmente porque estas me eram impostas. Isso implicou, na prática, em recusas rotineiras e veementes em estudar Matemática (matéria que jamais compreendi; ainda hoje conto nos dedos), além de me negar terminantemente a participar de projetos que não me pareciam instigantes e de não entregar trabalhos pelo simples fato de não ter vontade de executá-los. É óbvio que estas reações foram exageradas e imaturas, e minhas ações, nada inteligentes, não fizeram de mim a pessoa mais benquista pelos educadores, orientadores e disciplinadores. Enquanto muitos de meus colegas se digladiavam e fodiam uns aos outros para conquistar a maior nota e a frase elogiosa com a maior quantidade de adjetivos enaltecedores, eu simplesmente ignorava o porquê de tamanha, na falta de palavra melhor, comoção. Já naquela época percebia, ainda que visse tudo distorcido, que a nota recebida pela minha capacidade de calcular não me definia como ser humano. Olhar o quadro-negro coalhado de números e símbolos me confundia, então eu fugia, agradecida, para outro mundo. Abria, embaixo da classe, um dos livros que sempre levava comigo – certamente não um didático. Geralmente era Saramago. Li e reli os livros do autor português durante boa parte do Ensino Médio. Mas também podia ser Umberto Eco ou Fernando Pessoa, que já naquela época tinha em mim o Desassossego. As professoras – geralmente isso acontecia durante aulas de Física, Química e Matemática, apesar de hoje em dia me interessar muito pela primeira, talvez graças ao professor Dário, que já não me pode ler – variavam a abordagem. Algumas fingiam me ignorar; outras me forçavam a guardar o livro, às vezes até confiscando a obra, e me obrigavam a olhar para frente. Eu obedecia e olhava, sim, mas não via. Tanto é que reprovei. Duas vezes. Matemática e Química no segundo e terceiro anos do segundo grau. Felizmente só precisei repetir o segundo.

Minha postura desafiadora e minha atitude pouco esforçada me levaram a isso. Por sua vez, o que me levou a agir como agia ainda persiste em mim: um inconformismo com o modo como a inteligência humana é tratada pelas instituições de ensino. É lógico que minha guerra, naquela altura, foi um fracasso, já que minhas estratégias e esforços de combate foram pífios, ineficientes e equivocados, mas nunca quis, e nesse ponto nem mesmo sei se conseguiria, mudar minha essência questionadora.

Professores, disciplinadores e pedagogos não parecem ter noção de que, em suas mãos, está a responsabilidade de transmitir boa parte dos valores e visões que irão formar um indivíduo – as outras parcelas serão obtidas através da família e dos amigos mais próximos, além de pela forma empírica.

O certo é que muitas cabecinhas fervilhantes de ideias, curiosas e criativas, são, foram e serão decepadas no processo de integração ao feliz e agradável ambiente escolar. No momento em que iniciam os estudos do alfabeto e dos números, as crianças aprendem estritamente o que consta do currículo e é enfiado por suas gargantas abaixo. Além disso, compreendem desde muito jovens que não lhes é permitido questionar, pensar diferente, propor o novo, revolucionar. E se alguém, mesmo que de forma patética, comunica que não está contente, que acha que nada daquilo está certo e que gostaria de ter um bom motivo para seguir em frente, este alguém lucra imediatamente um problema muito maior do que seus 16 ou 17 anos conseguem dar conta: a hostilidade vinda de quem tem muito mais experiência, conhecimento e tempo de vida, mas que reuniu pouca sabedoria e capacidade de ser flexível. Em outras palavras, pessoas que têm uma imaginação pobre ou nula, ainda que tenham suas razões para ser assim, que costumam ser um grande apego às regras e nenhum à diversidade.

Quando as professoras, principalmente de Química (ah, os cálculos estequiométricos…) e Matemática (ah, a geometria analítica…), se viam diante de alguém que batia o pé, rapidamente corriam até o armário de rótulos, que acredito que ficasse na sala onde se reunia o extenso corpo docente, e pegavam aquele onde se lia “Menina mimada”. E baseado nele era o tratamento que eu recebia de quase todos os adultos da instituição. Era levada constantemente a disciplinadores que se limitavam a escrever advertências e a passar um sermão, e a pedagogas que sempre pareceram, aos meus olhos infantis e adolescentes, pessoas muito ruins. Hoje vejo, nelas, uma simples preocupação com a conduta dos estudantes e com a imagem da escola, mas isso sob uma postura rígida e desatualizada, incompatível com minha geração e mais ainda com aquela que veio depois. Lembro nitidamente de uma cena: minha mãe me chamando à sala de nossa casa e dizendo que haviam ligado do colégio novamente, e dessa vez quem lhe falou foi a coordenadora pedagógica L., por recomendação das professoras que fingiam me ignorar enquanto eu lia em sala de aula. Queria comunicar justamente este fato: o de que eu passava as aulas às voltas com romances. Nada contra a palavra em si, visto que as obras realmente podiam e podem ser rotuladas assim, mas, na hora, minha mãe reproduziu à perfeição a entonação de desdém de L. ao pronunciar romances. A voz de minha mãe era grave e estava de fato preocupada. Preocupada com o tipo de literatura que eu estava consumindo. Da forma como a coordenadora pedagógica colocou, poder-se-ia supor que eu era uma grande entusiasta de folhetins do gênero de Júlia e Sabrina, comprados em bancas de revistas, de capa mole e repletos de paixões piegas e passagens eróticas bastante engraçadas. Me apressei em tranquilizá-la. Eu ignorava as aulas enfadonhas em detrimento de autores aprovados pela educação intelectual espartana, digo, alemã, que recebi em casa (no fundo, é a mesma coisa). Até hoje, porém, não esqueço das palavras de L., embora não as tenha ouvido.

No passado, lutei e perdi, me rebelei e fracassei. Por ausência de uma postura clara e correta, mas também graças ao despreparo dos adultos diplomados em tratar alguém que não parecia se importar com as notas, mas que demonstrava uma inclinação – perigosíssima, bem sei – à filosofia, à literatura, à escrita. Não os culpo. Talvez eles não tenham aprendido nada melhor do que ensinaram. Com o passar dos anos eu fui me resignando, em termos, e me acostumando ao que me cabia: bilhetes com advertências, sermões que nem lembro o que continham, mas que não eram de cunho motivacional, e pedidos desesperados da coordenadora pedagógica para que minha mãe me levasse ao psicólogo. E isso tudo visto e acompanhado de perto pelos outros alunos, que devem ter aprendido direitinho a lição: o diferente é assim porque é louco. Destacar-se em meio à multidão é imoral, vexatório e perigoso. É evidente como 2 + 2.

Lembro de mais gente que sofreu. Quem gostava de piercings, de tatuagens, de debater ideias, de customizar o uniforme do exército.

Peço desculpas: o desdém pela educação formal é visível em mim. Não posso fazer nada contra isso. Mas não venho criticar o modelo atual sem propor nada para substituir o que não está bom, ainda que ninguém me vá ler e levar a sério.

Que se ensine às crianças a pensarem, que se deixe que leiam o que quiserem e, se não gostarem desta atividade, já que ninguém é obrigado a apreciar nada neste mundo, exceto os presentes que ganhamos em frente a quem nos deu, que se deixe que escolham uma ocupação que lhes dê prazer, devidamente monitorada e direcionada para resultar em capacitação e conhecimento. Mais tarde, quando não é possível, por uma série de razões, fugir do currículo e programa impostos, sou a favor de incentivar o estudo da teoria e também a prática daquela disciplina em que o adolescente se sai melhor – e da qual mais gosta –, para que ele possa ganhar, também, autoestima, força de caráter e capacidade de admirar a si mesmo. Ao contrário de ser incentivada, fui massacrada. Mas não lamento mais por isso. Procuro uma oportunidade para lutar pela forma de educação em que eu acredito.

Não creio que algum dia chegue a ter filhos, mas, se os tiver, penso que a educação que eu darei em nada se diferenciará da que recebi. Os cérebros pequenos devem ser conduzidos, com o passar dos anos, pela estrada do conhecimento – que vai dar, com a maturidade, na clareira do pensamento livre.

Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.

Jean-Paul Sartre

A minha intolerância

Li o texto de Eliane Brum e me senti, senão estarrecida, pelo menos envergonhada. Também sou intolerante com quem é diferente de mim e tem a ousadia de contrariar minha opinião – embora viesse, ao longo das últimas semanas, para não dizer meses, me esforçando cada vez mais para aceitar aquilo que está fora da minha capacidade compreender. De uma forma ampla, gostaria de ser uma pessoa melhor, ainda que este conceito seja muito subjetivo e relativo. De qualquer maneira, e não entrando nestes pormenores abstratos, posso dizer que gostaria de atingir determinado patamar. Por isso evito ao máximo, por incrível que pareça, apelar pra grosseria; quando ela eventualmente escapa, me sinto pairar em algum lugar entre o constrangimento e o sentimento de culpa. Preciso admitir, também, que tenho o péssimo hábito de fazer piadas pesadas e fortemente adjetivadas sobre os mais variados assuntos, coisa que entrou, há meses, na pauta da avaliação que começo a fazer de quem sou. Claro que não tenho por objetivo atingir ninguém em particular, mas acredito que muitos se sentem pessoalmente ofendidos com meus comentários ácidos no Twitter, principalmente aqueles que não se consideram agnósticos ou ateus.

Como que para reafirmar minha vontade de ser diferente, de fazer diferente, não passa um dia que não traga, junto com a rotina a que já me habituei, pelo menos uma ou duas lições sobre a importância de respeitar opiniões e visões diferentes das minhas. Não quero parecer piegas ou excessivamente açucarada, até porque jamais conseguiria ser assim, por mais que tentasse – não é da minha natureza e não é essa minha vontade. Apenas começo a perceber que os níveis de civilidade e racionalidade que há muito me propus atingir não virão, por assim dizer, ex nihilo. Nada vem sem esforço. Embora não seja nada fácil, também para a gentileza é possível treinar e condicionar a mente. Seria mais bonito e poético se esta fosse uma capacidade inerente a qualquer pessoa. Mas aí não poder-nos-iam chamar humanos. Nascemos amputados e defeituosos.

É certo, no entanto, que existem algumas situações que parecem se agigantar de propósito em frente ao nosso id – segundo Freud, parte instintiva e animalesca da psique humana –, provocando-o e incitando-o, até que finalmente se liberte em sua pior forma.

No meu caso, sentar atrás de um volante e dirigir pelas ruas asfaltadas, creio, é a condição que libera de forma mais avassaladora meu animal. Se estou atrasada e com pressa, tendo a andar a uma distância minúscula e ridícula do veículo que, na minha frente, mantém uma velocidade de normal a baixa – o que é, além de absolutamente desrespeitoso, bastante arriscado. Não que Prudência seja meu nome do meio: não é e nunca foi. Mas não me agrada colocar a vida de outrem em risco. Raras vezes penso nos motivos que levam o cidadão a, na minha visão exacerbada, se arrastar pelas avenidas da cidade. A situação já se inverteu, claro. Mais de uma vez me perdi em cidade desconhecida e passei horas rodando por um bairro para encontrar um endereço. Em ambos os casos, andei a esmo e muito atenta a placas e sinais que me pudessem indicar qualquer coisa. Não tiveram piedade de mim. O que não significa que eu deva me inspirar no mau exemplo, já que também encontrei pessoas gentis na estrada da vida (falo sobre isso em outro momento) que me marcaram muito mais.

Outro caso também deixa descoberto meu eu mais irascível e lamentável: quando me exponho propositadamente ou sou exposta a qualquer manifestação religiosa – sites, programas de TV, missas, mensagem aleatórias, vídeos no YouTube. Já há algum tempo questionava minha intolerância absurda e descabida. O texto de Eliane Brum, ainda que na essência difira um pouco deste meu, foi o estopim para que eu finalmente passasse a uma espécie de nojo de quem era – e sou – e da minha certeza tão inabalável e meu escárnio tão debochado. Não experimentei qualquer revelação de cunho místico/espiritual e tampouco passei a acreditar em uma força superior ou a seguir uma religião. O fato é que pela primeira vez encarei a verdade: não sou dona dos segredos do mundo. E ele possivelmente os tem. Ainda que nem eu nem ninguém chegue às vias de conhecê-los. A verdade não se deixa, pois, ser descoberta – ou cortejada, como disse Nietzsche certa vez ao compará-la a uma dama. O que faz de mim uma agnóstica, não uma ateia. Sem certezas e despida até de suposições.

O que propus a mim mesma – ser uma pessoa mais tolerante – nada tem a ver com abdicar de certas opiniões e convicções, e não combina, definitivamente, com prostração, alheamento e submissão. Apenas respeito o que não posso entender, apenas admito que há muitas coisas que pairam fora da minha esfera de compreensão, apenas aceito que há muita gente no mundo e que é estúpido demais desejar que todos pensem como eu. Cada indivíduo sabe o que o leva a ser quem é. Ninguém mais. A tarefa de existir não é fácil; para suportar o peso de ser, são criadas, todos os dias, visões de mundo distintas e antagônicas. Diante de uma situação qualquer, portar-nos-emos de vários modos, agiremos de vários jeitos, seguindo cada um aquilo em que acredita e – quase sempre – fazendo jus àquilo que disse para si mesmo que gostaria de ser. Seja o que for. E não cabe a mim julgar quem quer que seja com base em meus conceitos e em minhas vãs filosofias. Lavo, pois, as minhas mãos. E torço para que consiga, sem muitos deslizes e falhas, atingir meu propósito de respeitar sem tecer opiniões mesquinhas, de ser gentil com quem sequer conheço, de baixar a cabeça para a vida e dizer: “Não sei”. A única coisa a que não sei se conseguirei me acostumar um dia é à falta de respeito. A mesma que eu tinha, a mesma que sei que vou ter nos momentos em que falhar na tarefa de refrear meus ímpetos, deixando, assim, que a minha racionalidade me escape. Mas talvez até a isso me habitue, já que têm os que insultam, afrontam e desprezam razões muito íntimas para desdenhar o outro. Tolerar com sabedoria o desrespeito, sem permitir que firam diretamente a dignidade a que, como qualquer ser vivo, tenho direito, é meu último degrau.

Lou Reed.

Lou Reed.

A boneca inflável de cada um, de Eliane Brum

Reproduzo, aqui, um texto magnífico de Eliane Brum, repórter da Revista Época. Ele servirá como base pra uma série de posts que quero fazer em seguida.

Lars mora na garagem da casa de seu irmão mais velho. Tem 27 anos, mas não gosta de sair, nem mesmo para tomar café coma família, apesar dos esforços quase acrobáticos de sua cunhada. Só sai para ir ao trabalho e à igreja. Mas um dia ele aparece na casa do irmão e avisa que vai trazer Bianca, sua namorada, para o jantar. Explica que, como ela é meio brasileira, meio dinamarquesa, não fala inglês. Bianca não caminha e precisa de uma cadeira de rodas, já que a sua foi roubada. Lars pergunta ainda se ela pode se hospedar na casa deles porque, como ambos são religiosos e solteiros, não acham certo ficar sob o mesmo teto. O irmão e a cunhada, que se preocupam com a solidão de Lars, ficam exultantes. 

Muito animados, arrumam o quarto de hóspedes e preparam o jantar. Em seguida, Lars aparece com a namorada. E eles descobrem que Bianca é uma boneca daquelas feitas sob encomenda para sexo.

Este é o enredo de um filme que pega a alma da gente pelo pescoço e bota ela no colo para um diálogo de delicadezas. Dirigido com sutileza pelo estreante Craig Gillespie e marcado por atuações excepcionais, foi quase ignorado pelo Oscar 2007 (apenas uma indicação para melhor roteiro original), passou meio batido pelos cinemas brasileiros aonde chegou com muito atraso no ano passado e agora pode ser encontrado em qualquer locadora. Acaba também de estrear na TV a cabo nos canais telecine. Como o título em português é muito, mas muito ruim (“A garota ideal”), a gente passa por ele nas locadoras ou na programação e pensa que é mais um daqueles filmes descartáveis meio abobados. Eu mesma passei por ele dezenas de vezes na prateleira da locadora sem uma segunda olhada. Só aluguei porque foi muito bem recomendado. Então assisti – e fiquei com vontade de ser rica para distribuí-lo pelas ruas como presente de utilidade pública. Como não sou, escrevo.

A grande história do filme é como a família, a médica e a comunidade da cidadezinha lidam com a suposta maluquice de Lars naquele inverno. Depois do jantar de apresentação, a cunhada sugere que Bianca possa estar estressada com tudo o que viveu nos últimos tempos. Deveriam levá-la a uma médica conhecida, que também é psicóloga, para um check-up. Depois de examinar Bianca com o estetoscópio e auscultar a situação com os olhos e os ouvidos, esta médica diz que não lhe parece que Lars tenha uma doença mental que o leve a uma internação. Do jeito dele, Lars leva a sua vida, trabalha e não machuca ninguém. Para ela, Bianca chegou por algum bom motivo. Lars criou Bianca para ajudá-lo a resolver um conflito. Quando o conflito for solucionado, Bianca poderá partir.

Neste caso, diz ela, o melhor a fazer é acolher Bianca. “Mas ela é uma fantasia”, diz o irmão. “Não”, diz a médica, “ela é real”. Está bem ali, na sala de espera do consultório. Para Lars ela é real – e este é o título traduzido do inglês (“Lars e a garota real”). “Mas vão rir dele”, retruca o irmão. A médica dá uma olhadinha e afirma: “E de vocês também”. Na manhã seguinte , o irmão não se contém e diz para Lars que Bianca “é só uma coisa de plástico”. Lars dá um sorrisinho, cochicha com Bianca e explica: “Bianca diz que Deus a criou assim para poder ajudar os outros”.

A partir deste momento, o filme conta como a cidade acolheu a Bianca de Lars. Ou melhor, como acolheu Lars. Embora a realidade dele parecesse bizarra para todos – e para cada um à sua maneira – não o julgaram. Apenas o acolheram. Esvaziaram-se de seus preconceitos para alcançá-lo, ainda que não pudessem entendê-lo. Não podiam entendê-lo nem ver o que ele via, mas podiam amá-lo. Em vez de destruí-lo porque não podiam entendê-lo, como acontece habitualmente, o amaram mais.

Se um Lars aparecesse perto de nós – e a verdade é que volta e meia aparece algum –, o mais provável seria enquadrá-lo no escaninho de alguma doença mental e dopá-lo. Antes da luta antimanicomial, os hospícios estavam cheios de gente parecida com Lars. Malucos, lunáticos, delirantes, loucos, fora da casinha. Gente que, mesmo não tendo nenhum traço de violência, nos perturba porque ouve vozes que não ouvimos, considera real o que para nós é fantasia, desafia nossa suposta normalidade. Gente que, com a sua diferença, nos perturba tanto que só conseguimos dar uma resposta violenta: a rejeição.

Dias atrás eu ouvia uma amiga contar sobre um primo que desde que perdera uma pessoa querida passara a se comunicar com ETs. Ele toca a sua vida, continua sendo um jovem doce, mas conversa com extraterrestres como se fossem velhos conhecidos. A família está perdida, sem saber o que fazer. Minha amiga está preocupada porque teme que ele perca os amigos, o emprego, a vida que construiu. Ao escutá-la, percebi que a angústia dela não se dava pelo fato de o primo conversar com ETs, ainda que não acredite que eles existam neste mundo. O problema é o que as pessoas ao redor farão com alguém que não faz mal para ninguém, mas jura conversar com alienígenas. O problema é a capacidade de destruição daqueles que acreditam em coisas aceitas como “normais” quando se descobrem diante de quem acredita em coisas consideradas “anormais”. Sejam elas uma boneca inflável ou um ET.

Talvez o primo da minha amiga converse com ETs pelo resto de sua vida, talvez um dia os ETs partam para outras galáxias onde existam outros garotos doces precisando ser escutados por criaturas verdes. Ou talvez o primo mande os ETs embora porque encontre alguém do próprio planeta para ocupar este lugar. O problema será, enquanto isso, sobreviver às pessoas que escondem seus ETs no armário.

É uma pena que precisemos tanto de julgamentos sobre o que é um comportamento normal ou não – sempre esquecendo que a “normalidade” muda conforme a cultura e o tempo histórico. Esquecendo também de olhar para a própria vida, com a honestidade necessária, para perceber que cada um de nós acredita em coisas muito estranhas e bizarras. Apenas que são coisas que mais gente também acredita. Este, aliás, é um exercício bem interessante, capaz de alargar os limites sempre estreitos de nossa tolerância.

É triste viver num mundo onde diante de qualquer diferença, mesmo que de opinião, seja preciso cair matando. Que gente tão insegura e pobre de espírito nos tornamos para temermos tanto aqueles diferentes de nós? Sempre que vejo alguém desqualificando um outro por suas ideias e suas crenças, fico pensando: será que esta pessoa tem uma vida tão sensacional que todas as outras precisam ser esculhambadas? Desconfio que seja exatamente o contrário. Não custa nada olhar para dentro e apalpar um pouco a matéria dos nossos dias antes de sair por aí cimentando regras para a vida de todos. Torço muito para que o primo da minha amiga não encontre gente que se sinta ameaçada pelos seus ETs. Mas sei que vai encontrar. E temo por ele.

Acho que, em alguma medida, temos todos nós ETs ou bonecas infláveis que nos ajudam na tarefa complicada que é viver. Especialmente quando esta tarefa fica muito difícil. Seria tão bom que conseguíssemos amar melhor e, mesmo ao ver os outros agarrados a ETs bem pequeninos, fôssemos capazes de deixar passar sem sacarmos nossas armas de extermínio. Quantas vezes não vemos gente bem próxima que está segura apenas por um fio à sua vida por causa de alguma tragédia ou mesmo de uma fragilidade maior diante das agruras do mundo. Em vez de escutar, aceitar e acolher, nosso comportamento habitual é sair logo cortando, com uma tesoura bem grande, o fio que aquela pessoa teceu com a maior dificuldade. E sem oferecer nada em troca para botar no lugar. 

Estou bem cansada de gente que adora dizer, apoiada por sua metralhadora de certezas: “Fulano está perdido”. Ou “sicrano nunca conseguiu fazer nada decente na vida”. Ou, os que acham chique falar em inglês: “Beltrano é um loser”. Será que estes arautos do sucesso estão tão perdidos que pensam que se acharam na vida? Bem, talvez esta crença seja o único fio que os mantêm acima do abismo.

“Lars e a garota real” (ou “A garota ideal”), o filme, é uma fábula. Não por causa de Lars, mas por nossa causa. Naquela cidade as pessoas são muito melhores do que nós. De repente percebi, assistindo ao filme, que o mais estranho ali não era Lars e sua boneca, mas todos os outros. Porque, NESTA vida real, não há nada mais distante do normal, não há nada mais bizarro ou fora da casinha, do que gente que, em vez de julgar, catalogar e descartar aquele que é diferente, escuta, aceita e acolhe. Este – e não o de Lars – é o comportamento mais lunático do filme. Uma pena não para os Lars da vida, mas para todos nós.

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Os apaixonados pela Língua Portuguesa têm o seu espaço no site assinado por Cláudio Moreno. Os textos, sobre assuntos linguísticos variados que vão de voz passiva sintética a denotação e conotação, são quase poéticos aos olhos de quem realmente ama o idioma de Camões. Por isso recomendo muito e sempre – até para aqueles que não veem o português como um interessante assunto de estudo e debate, mas que sabem que se vive em uma época em que escrever bem é, infelizmente, um diferencial.